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Irecê e o “bom moço”: quando a imagem começa a desmoronar

  • Foto do escritor: Redação FalaAiBahia
    Redação FalaAiBahia
  • 18 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: 19 de dez. de 2025


Irecê e o “bom moço”: quando a imagem começa a desmoronar

Por anos, Elmo Vaz ocupou o espaço público com um roteiro eficiente: o gestor “do bem”, o homem simples, cercado de símbolos de respeitabilidade social, trânsito fácil entre grupos influentes, presença constante em ambientes de solidariedade e trabalhos comunitários. Isso funciona porque, na política, imagem não é enfeite: é capital. E, quando bem construído, esse capital altera a forma como a cidade interpreta tudo, inclusive o que não está explicado.


O “bom-mocismo” é um método de comunicação. Ele desloca o debate do terreno verificável (decisões, prioridades, resultados, processos) para o terreno emocional (caráter, bondade, gratidão). Na prática, a discussão pública sai do “o que foi feito” e vai para “quem ele parece ser”. O problema não é alguém participar de ações sociais; o problema é quando esse repertório vira atalho para substituir transparência por reputação.


É assim que uma imagem cria conforto. Cria tolerância. Cria desculpas prontas. Quem questiona passa a ser visto como injusto. Quem cobra vira “perseguidor”. E, lentamente, a cidade se acostuma a confundir simpatia com seriedade administrativa, carisma com lisura, convivência social com responsabilidade pública.


Quando o tempo começa a trazer à tona denúncias e suspeitas graves, o choque não é apenas pelo conteúdo. É pelo contraste. A cidade não se espanta somente com a possibilidade de irregularidades; ela se espanta por ter colocado tanta confiança em sinais que não comprovam nada. A estética da virtude tem esse efeito: ela reduz o ceticismo, desarma a vigilância, amolece o senso de cobrança.


E há um agravante: as denúncias que circulam não atingem apenas um personagem. Elas sugerem um ambiente, uma teia. Fala-se em cooptação do poder por grupos e famílias, muitas vezes “tradicionais”, também envoltas em boa reputação e aparência de civilidade. Como se o bom-mocismo não fosse um traço individual, mas um verniz coletivo: uma forma de a cidade aceitar, sem fricção, que poucos decidam muito, por muito tempo, sob a proteção do prestígio social. Se parte disso se confirmar, não será apenas “decepção com um líder”; será a revelação de um arranjo, um conserto silencioso, que confundiu influência com legitimidade.


Por isso, a pergunta que se espalha não é um detalhe: é a pergunta central. Como uma figura tão bem aceita, tão “redonda” socialmente, pode conviver com um cenário em que agora o que se ouve são suspeitas capazes de chocar?


A resposta passa menos por um segredo e mais por um hábito coletivo. Uma cidade inteira pode se acomodar numa narrativa confortável. E, quando isso acontece, a fiscalização vira exceção. A cobrança vira falta de educação. O vereador que deveria apertar vira alguém “criando problema”. A instituição que deveria agir vira um silêncio que ninguém cobra com força. E o resultado é previsível: em vez de escrutínio contínuo, a cidade fica dependente do “tempo” , e o tempo não investiga, apenas revela.


No fim, a desconstrução do “bom moço” é menos sobre uma pessoa e mais sobre o que Irecê tolerou como critério político. O município não precisa de personagens impecáveis; precisa de gestores auditáveis. Precisa de transparência como rotina, não como reação. Precisa de uma cultura pública em que reputação não substitui documento, e em que a pergunta difícil não seja vista como agressão, mas como dever.


Porque o dia em que a cidade aprende a cobrar com método é o dia em que o bom-mocismo deixa de funcionar. E aí, sim, a política volta ao que deveria ser desde o início: prestação de contas, com fatos, antes que a próxima camada dessa história venha à tona.

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